Ruas começa transição de governo
Enviado Quarta, 14 de Outubro de 2026.Interlocutores também confirmam que a equipe do governador eleito avalia promover um enxugamento administrativo
A agenda de campanha, prioridade até outro dia, deu lugar aos primeiros passos do processo de transição. Na tarde de ontem, o governador eleito do Rio, Douglas Ruas (PL), reuniu-se com o titular do cargo em exercício, o desembargador Ricardo Couto. Em seguida, partiu para a Assembleia Legislativa — na condição de presidente da Casa e futuro chefe do Executivo fluminense. Em meio a essa movimentação, contornos do novo governo começam a ganhar forma. Segundo fontes do PL, a missão número um de Ruas, tratada nos bastidores, envolve devolver à Secretaria de Segurança o papel central no planejamento e na coordenação das ações das polícias Civil e Militar.
Essa atribuição foi perdida em 2019, quando o ex-governador Wilson Witzel extinguiu a pasta. Embora recriada por Cláudio Castro em 2023, a secretaria perdeu protagonismo — o que a próxima gestão pretende reverter. No modelo em estudo, a PM e a Polícia Civil não teriam mais status de secretarias: os próximos comandantes das duas corporações responderiam ao secretário de Segurança.
Interlocutores também confirmam que a equipe do governador eleito avalia promover um enxugamento administrativo. Uma das propostas na mesa é unificar a Secretaria de Estado de Infraestrutura e Obras Públicas (SEIOP), a Secretaria das Cidades e o Departamento de Estradas de Rodagem (DER), que é uma autarquia, sob o mesmo guarda-chuva. Para comandar essa superpasta de infraestrutura, o nome mais cotado é o prefeito de Itaboraí, Marcelo Delaroli (PL) — irmão do vice-presidente da Alerj, Guilherme Delaroli.
Outra fusão em análise envolve as pastas de Turismo, Esportes e Eventos. Fontes próximas a Ruas ressaltam, no entanto, que a viabilidade técnica e administrativa do arranjo ainda é avaliada.
1h30 de reunião fechada
O governador eleito e o governador em exercício se encontraram na sede do Tribunal de Justiça do Rio (TJRJ) pela primeira vez desde a confirmação do resultado das eleições. A reunião fechada aconteceu no gabinete de Ricardo Couto.
— É uma primeira reunião de transição, só isso. A relação (com Ricardo Couto) sempre foi muito boa — disse Ruas ao chegar ao TJ às 13h35.
O encontro durou pouco mais de 1h30. Dali, Ruas seguiu para o plenário da Assembleia Legislativa (Alerj), onde presidiu a sessão de terça-feira. A Casa estava cheia: o painel marcava a presença de 68 parlamentares.
No discurso de abertura dos trabalhos, Ruas defendeu a união entre os poderes e prometeu manter diálogo permanente com os integrantes da Assembleia.
— Espero que possamos ter quatro anos de boa convivência. A segurança pública é prioridade. Falamos isso ao longo de toda a campanha. Estamos conversando e, em breve, vamos anunciar os nomes por meio de coletivas de imprensa. Teremos um cronograma estabelecido para que a imprensa e toda a população do Estado do Rio de Janeiro possam acompanhar nosso trabalho já durante a transição — disse o presidente da Casa.
Hoje, no Diário Oficial do estado, um decreto de Couto estabelece as regras da transição. O novo governador poderá indicar até cinco nomes para a equipe de transição, que terá acesso completo aos relatórios com diagnósticos sobre as pastas. Os secretários atuais têm até o próximo dia 30 para apresentar dados sobre as contas públicas e a situação de projetos em andamento e interrompidos, além de pontos sobre os quais Ruas terá que tomar decisões nos cem primeiros dias de mandato.
Pela equipe atual, vão participar da transição os titulares da Casa Civil (Flávio Wileman) bem como o subsecretário (Sérgio Pimtentel), do Planejamento e Gestão (Rafael Ventura Abreu), da Fazenda (Guilherme Mercês), da Infraestrutura e Obras Públicas (Paulo Vilarim Gonçalves) e da Procuradoria Geral do Estado (Bruno Dubeux).
Douglas ainda vai encaminhar a relação de nomes para integrar a equipe que ficará responsável pelo novo governo. Uma das cotadas é a secretária estadual das Cidades, a gestora pública e socióloga Maria Gabriela Bessa.
Nomes cotados
Em meio ao redesenho da máquina pública, o xadrez político para a composição do primeiro escalão já tem alguns cotados para postos de maior peso. Na chefia de gabinete, o favorito é Fábio Araújo, o Fabinho, aliado histórico da família Ruas e ex-secretário municipal de Governo em São Gonçalo na gestão do prefeito Capitão Nelson (PL), pai de Douglas. Já para o Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Ruas e o senador Flávio Bolsonaro (PL) avaliam, de acordo com fontes ouvidas pelo GLOBO, nomes da Polícia Federal ou do 7º Batalhão da PM (São Gonçalo).
A Secretaria de Estado de Governo (Segov) tem dois nomes que disputam a indicação: Bruno Bonetti — coordenador de campanha, articulador político e braço-direito de Altineu Côrtes, presidente regional do PL — e Jair Bittencourt (PL), deputado estadual reeleito que já comandou três secretarias na gestão de Cláudio Castro. A pasta de Planejamento ou a Casa Civil são possibilidades para a atual secretária de Cidades, Maria Gabriela Bessa, que desponta como figura-chave do novo governo. Bessa assumiu a pasta das Cidades quando Ruas se desincompatibilizou para disputar o Palácio Guanabara. Já para a Secretaria de Fazenda, Ruas estuda convencer o ex-ministro da Economia Paulo Guedes. Mas isso ainda dependerá de articulações por Brasília. Os deputados estaduais reeleitos Gustavo Tutuca (PP), Anderson Moraes (PL) e Jorge Felippe Neto (PL), presentes na campanha, também devem ocupar cargos relevantes.
Aliados reconhecem que a composição de pastas sensíveis — Saúde, Educação e Segurança — exigirá um equilíbrio delicado entre critério técnico e viabilidade política.
Na Saúde, o nome do deputado federal eleito e ex-prefeito de Mesquita Jorge Miranda ganha força devido à reestruturação da atenção básica promovida em seu município entre 2017 e 2024. Contudo, a indicação enfrenta ressalvas internas por causa de uma decisão do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ) em 2025, à revelia, relacionada a irregularidades em contratos de saúde. Jorge Miranda, junto com um ex-secretário de saúde e uma empresa, foram condenados a pagar R$ 32,3 milhões aos cofres públicos. Na Educação, a equipe estuda nomes que ocuparam cargos no ministério respectivo durante a gestão de Jair Bolsonaro.
A primeira secretária
Na Segurança, Ruas pretende indicar nomes que não tenham ligação política. Vale lembrar que o presidente da Alerj é policial civil de carreira, aprovado no concurso de 2012 e com passagem pela Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo, Itaboraí e Maricá (DHNSG). Para o coronel Ubiratan Ângelo, ex-comandante-geral da PM, professor da Universidade Candido Mendes e consultor em segurança pública, a reestruturação na área deve propiciar as condições para o planejamento de uma política de Segurança efetiva.
— A função tem que ser político-estratégica, de integração entre as demandas das pastas, independentemente do nome que se dê para o órgão. O secretário tem que definir as diretrizes para combater o crime. E quem for chefiar a Polícia Civil e comandar a Polícia Militar deve ter autonomia para fazer nomeações de forma a cumprir essas metas — explica o especialista.
Na noite de ontem, após os compromissos no TJRJ e na Alerj, Douglas Ruas anunciou o primeiro nome de seu secretariado: Fernanda Louback, vice-governadora eleita, assumirá a Secretaria de Estado da Inclusão e da Mulher.
Fonte: O Globo
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