Reforma tributária já começa a surtir efeito positivo na logística

Enviado Terça, 22 de Setembro de 2026.

Empresas planejam redimensionar centros de distribuição erguidos em locais remotos só por incentivos em impostos

O manicômio tributário brasileiro levou diversas empresas a definir sua malha logística de acordo com os incentivos concedidos por estados e municípios. Atraídas por vantagens tributárias, as companhias se acostumaram a montar centros de distribuição (CDs) distantes dos maiores mercados consumidores. O crescimento da indústria farmacêutica em Goiás é um exemplo ilustrativo. Pouco importava ver caminhões rodando milhares de quilômetros a mais todos os meses para levar os remédios aonde seriam usados. O aumento do tráfego nas estradas, com todo consumo de combustível e emissão de poluentes, compensava para o fabricante. A ineficiência logística passou a ser um corolário das isenções de impostos. Num levantamento da consultoria Ilos em 2023, as empresas relatavam que 40% de seu faturamento estava associado a CDs localizados de acordo com incentivos tributários. No setor de bens de consumo, 58%.

A reforma tributária aprovada pelo Congresso em 2023 começa a corrigir as distorções. Os dois tributos mais usados na guerra dos incentivos fiscais — o estadual ICMS e o municipal ISS — serão gradualmente substituídos a partir de 2029 e extintos em 2033, substituídos pelo novo IBS. Além da unificação de impostos, a reforma uniformizou o local de recolhimento dos tributos. Até hoje, grande parte é cobrada no local de produção ou armazenagem. De forma gradual, os impostos passarão a ser cobrados no estado em que o produto é consumido, como em praticamente todos os países. Centros de distribuição criados em estados como Santa Catarina ou Espírito Santo na base da vantagem tributária perderão sentido econômico.

Como mostrou reportagem do jornal Valor Econômico, um novo levantamento da Ilos a partir de um universo de 110 companhias com faturamento médio de R$ 22 bilhões revela que 21% delas mudarão a localização de seus CDs. Entre empresas do atacado, varejo e distribuição, o percentual alcança 33%. Na indústria de base e bens de capital, 27%. Na indústria de bens de consumo, 24%. Para 67% das empresas entrevistadas, a operação logística melhorará. As mudanças previstas também envolvem selecionar fornecedores mais próximos da nova malha de distribuição. Do total da amostra, cinco em dez afirmam incorrer em custos maiores com logística apenas para obter acesso a benefícios tributários.

As mudanças já começaram. “Muitos dos clientes em localidades subsidiadas já iniciaram a conversa de revisão da estratégia. Tem cliente que deve decidir ficar nas localidades não pela questão de impostos, mas por apostar no crescimento da região”, diz Camila Lima, vice-presidente de Operações da FedEx no Brasil. O fim da barafunda de normas e alíquotas começa, silenciosamente, a surtir efeitos positivos na eficiência da economia brasileira. Há décadas o Brasil tem sido uma anomalia em razão do pandemônio tributário. Os ganhos em eficiência logística são uma das vantagens palpáveis de combatê-lo.

Fonte: O Globo