Com as ruas mal conservadas, as principais vias de circulação esburacadas, infraestrutura de transportes deficiente e investimento próprio que não passou de modestos R$ 150 milhões no primeiro ano, o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB), ainda não tem um balanço positivo a apresentar. Mesmo com a conquista do direito de realizar os Jogos Olímpicos de 2016, a avaliação de Paes no fim de 2009 era pior do que quando iniciou seu mandato.
Não seria tão grave para um primeiro ano de governo se ele não tivesse pela frente um processo eleitoral no qual o principal fiador da sua eleição, o governador Sérgio Cabral Filho (PMDB), disputa a reeleição. É na capital, onde o trabalho de Paes é avaliado, que o principal adversário do governador, o deputado federal Fernando Gabeira (PV-RJ) tem seu principal reduto. Tanto que quase derrotou Paes e toda a máquina pemedebista nas eleições municipais.
O prefeito começou seu mandato apoiado no marketing de um choque de ordem que, apesar de alguns resultados, foi perdendo força com o tempo e tornando-se tema de brincadeira do carioca. Sem ter ainda realizações a apresentar, Paes defende-se dizendo que 2009 foi o ano de arrumar as finanças e que vai investir, com o apoio do Estado e do governo federal, R$ 5 bilhões até 2012. Ele diz que, por enquanto, não está preocupado com a popularidade e que também não se sente obrigado a assegurar a vitória de Cabral na capital. Mas afirma também não temer pela reeleição do seu aliado e tece loas ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, prometendo trabalhar pela eleição da ministra Dilma Rousseff para substituir o petista. Onze quilos a mais desde a posse há um ano, diz que engordou por pura ansiedade. A seguir, trechos da entrevista ao Valor:
Valor: Se o senhor tivesse que fazer um balanço do primeiro ano, o que há de positivo além dos Jogos Olímpicos?
Eduardo Paes: Olhando de fora, vê-se dois grandes pontos: o diálogo da Prefeitura do Rio com os outros níveis de poder, que é uma característica contrastante com a prática daquele que me antecedeu [Cesar Maia], e o choque de ordem. Este acabou englobando até mais coisas no imaginário das pessoas do que aquilo que ele representa de fato. Se você for olhar mais para dentro, acho que foi um ano no qual a gente construiu bases sólidas para crescer. Construímos capacidade de investimento, retiramos a prefeitura de uma situação pré-falimentar. Cesar Maia sabe fazer contas. Então ele, propositadamente, percebendo que não faria seu sucessor, construiu uma partição orçamentária de modo que a questão de pessoal ficou completamente explosiva. Então, quando entramos na prefeitura, estava prestes a quebrar.
Valor: Quanto dos investimentos sairá dos cofres da prefeitura?
Paes: R$ 5 bilhões de obras que estão se iniciando e estão projetadas até 2012. Para este ano, vamos gastar perto de R$ 1,8 bilhão.
Valor: Quanto é esse investimento em percentual da receita?
Paes: Nós pegamos a prefeitura investindo abaixo de 2% e estamos levando para perto de 10%.
Valor: Qual é o percentual da prefeitura e o de outras origens?
Paes: Eu diria 70-30, ou seja, 70% da prefeitura e 30% do governo federal. A Prefeitura do Rio, pelo menos até o quarto bimestre [de 2009], era o maior superávit do Brasil e acho que a gente terminou o ano nesta situação*. Claro que isso pressupôs um ano de pouco investimento e redução forte de custeio. E a gente conseguiu conter o crescimento de pessoal, de modo que esses ganhos serão permanentes.
Valor: Quanto foi o investimento?
Paes: Ano passado a previsão orçamentária total de investimentos era de R$ 700 milhões, mas tinha recursos externos... o investimento da prefeitura mesmo era de R$ 200 milhões. Nós conseguimos desembolsar R$ 150 milhões, o que é "peanuts" para uma prefeitura como a do Rio. Absolutamente patético e ridículo.
Valor: O que a população está pensando é que, passado o primeiro ano, agora é hora de cobrar. Este é um ano eleitoral. Como o senhor pretende marcar este ano?
Paes: Nós conseguimos construir bases sólidas para uma evolução que começa a acontecer. A rede de atenção básica, clínica da família, principalmente para as regiões mais pobres da cidade. Vai ser um ano de muitas obras começando. Será um ano no qual pretendo ajustar a conservação da cidade que é muito ruim. O mais grave é que é tanta degradação que eu vou gastar R$ 420 em fresagem [raspagem do asfalto velho e recapeamento] e só vou conseguir fazer as vias principais.
Valor: No ano passado o senhor andou perdendo pontos na avaliação. Segundo o Datafolha e avaliação de bom e ótimo caiu de 38% em março para 29% em dezembro de 2009...
Paes: Eu nunca tive muita popularidade não, porque a eleição foi dura. Tive que fazer ajustes ao longo do período e aí a popularidade foi diminuindo. Não é uma coisa pela qual eu esteja colocando pressão sobre mim agora. Não acho que seja motivo de preocupação agora.
Valor: O seu projeto é importante para alavancar a reeleição de Cabral na capital. Como é que vai funcionar essa dobradinha?
Paes: Eu acho o seguinte: amanhã de manhã (a entrevista foi feita no dia 4 de fevereiro) tenho uma agenda com o Cabral. A gente começa o dia inaugurando uma clínica em Mangueira. O Estado fez lá um prédio para mim. É um exemplo concreto do que significa essa parceria. Já nas Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), que atuam em algumas favelas da cidade, a gente dá R$ 500 aos policiais. Tem muita coisa acontecendo, obras do PAC, com a prefeitura fazendo a atenção básica.
Valor: O deputado Fernando Gabeira [provável candidato a governador pelo PV-PSDB], é forte na capital. Como o senhor vai garantir a vitória do governador no território que o senhor governa?
Paes: Olha, não tem essa garantia não. É ele, não sou eu. Eu tenho o maior respeito pelo Gabeira, mas ele teve um momento ali na eleição municipal...
Valor: Uma onda apenas?
Paes: Que não era consistente. Se fosse consistente não teria morrido na praia. Sinceramente, eu não temo pela reeleição do Cabral não. Ele estabeleceu parceria com os demais níveis de poder. Resolveu o problema da segurança? Não. Mas deu um norte para a segurança. Hoje a gente sabe que tem um caminho. O serviço público melhorou 500 mil por cento. Está investindo em infraestrutura. Não sei qual é o discurso que a oposição, que o Gabeira, vai fazer. Vai ter uma enorme dificuldade.
Valor: Mas a imagem da Prefeitura do Rio não vai ser importante nessa eleição estadual?
Paes: Vai, mas eu relembro: o Sérgio, na época da minha eleição, não era o sujeito mais popular do mundo. Chegou a ter mais desaprovação do que aprovação. E eu nunca o escondi na campanha. Teve muita gente que naquele momento podia estar insatisfeita com ele e que votou em mim. Pode ser que tenha gente insatisfeita comigo que vai votar nele.
Valor: Essas rusgas recentes - contratação de Tony Blair para consultor dos Jogos Olímpicos, escolha [por Cabral] do Palácio Capanema [antiga sede do Ministério da Educação no Rio] para quartel-general da organização dos Jogos - provocaram algum abalo nas relações do senhor com o governador?
Paes: Numa boa, objetivamente: eu e Sérgio Cabral não concordamos em 100% das coisas não. O que nem de longe significa rompimento. Você pode ter visões distintas. Agora, esse caso do Palácio Capanema, que pintaram dessa maneira, literalmente, quem decidiu fomos eu e o ministro dos Esportes, Orlando Silva. Quanto ao Tony Blair, não, eu não fazia ideia, mas para contratar o Tony Blair o governador precisa me perguntar?
Valor: Para o investidor, o que vai acontecer de interessante nesse processo da montagem da estrutura olímpica?
Paes: Eu acho que o Rio tem cada vez mais claras suas vocações. A gente quer que o Rio seja o melhor lugar para se trabalhar e para viver. Juntar qualidade de vida com trabalho, o que não é uma fama da cidade. O Rio tem muito mais a fama relacionada com alguma coisa específica. Enfim, o Rio tem um setor de serviços muito sofisticado, tem nichos de mercado muito bons... Qual a principal empresa de mídia do Brasil? Organizações Globo, está no Rio. Principal empresa de telecomunicações? Telemar (Oi), está no Rio. Principal empresa de petróleo? Petrobras, está no Rio de Janeiro. Principal mineradora, Vale, está no Rio de Janeiro. Ou seja, isso aqui não é um lugar qualquer. Fora algumas agências governamentais muito relevantes como o BNDES. Ou seja, o Rio concentra alguns setores bastante relevantes para a economia do país. O Rio é a principal concentração da indústria da cultura, do lazer, da criatividade, do entretenimento, da moda, do design... A gente está querendo aproveitar essa oportunidade [dos Jogos] para consolidar esse papel.
Valor: O senhor citou grandes setores nos quais as principais empresas estão no Rio, o que é um fato. Mas os grandes fornecedores dessas empresas não estão, o que deixa o Rio sem densidade econômica.
Paes Eu vou falar da cidade do Rio, da qual eu sou prefeito. Não vou falar do Estado. Eu sou parceiro do governador, mas não sou ele. Para a cidade, eu não quero aquelas indústrias de São Paulo. Se quiser levar para a Baixada [Fluminense], leve. Não espere de mim nenhum incentivo para trazer aquelas indústrias. Acho que não é a vocação do Rio.
Valor: Com relação à Olimpíada, há um cronograma de medidas a serem tomadas?
Paes Vamos anunciar isso no devido momento. Desde novembro que eu faço reuniões quinzenais com o Nuzman [Carlos Arthur, presidente do Comitê Olímpico Brasileiro], a gente está em vias de criar um Instituto Olímpico.
Valor: Para quê?
Paes A ideia é concentrar, não misturar. Se a gente ficar só pensando na Olimpíada acaba embolando e não cuidando nem da prefeitura e nem da Olimpíada.
Valor: E a revitalização da área do porto?
Paes A revitalização do porto não é um fim em si mesmo. Ela não começa em uma data e termina naquela outra data. Ela é um processo que já está dando certo e que vai dar certo, inevitavelmente. Como é que a gente acelera isso? A conquista olímpica traz para mais perto da nossa realidade, para o tempo do meu governo, muitas coisas que se acreditava que só aconteceriam depois que eu saísse daqui.
Valor: A gente vê um PMDB do Rio dividido. Um grupo atuando no Congresso, na área de energia, liderado pelo deputado federal Eduardo Cunha, e o grupo do executivo em outra direção. Falta uma unidade do partido no Estado?
Paes Quais são os personagens mais fortes do PMDB do Rio? Eu diria que são o governador e o prefeito. São os que detêm mais poder. Agora, tem outros personagens dentro do PMDB. Uns se dão muito bem com esses dois, outros não tão bem. Não quero colocar todo mundo na mesma família. Acho que o nível de união do PMDB do Rio é enorme.
Valor: O senhor vai subir no palanque da ministra Dilma?
Paes Se ela me convidar, sim, claro que vou subir no palanque dela. Apesar da minha relação pessoal com o adversário dela, de carinho e amizade pelo governador José Serra, eu vou apoiar a candidata de um governo que está fazendo muita coisa pelo Rio, fazendo muita coisa pelo Brasil. Que está mudando a vida das pessoas, quer gostem, quer não gostem.
Valor: Se o governador José Serra for eleito o senhor irá na posse?
Paes Eu vou. Primeiro vou tirar foto com Cabral, reeleito, e depois vamos para Brasília. Mas se o Cabral não ganhar aqui, eu também vou. Posso ir triste, mas vou. Eu sou o prefeito do Rio.
Valor: Como nome forte do PMDB ao governo do Estado em 2014, no caso de reeleição de Cabral este ano, o senhor preferiria ser o prefeito da abertura da Olimpíada em 2016?
Paes Outro dia veio um cara que é candidato a senador, não vou falar o nome, pedir o meu apoio. Ele disse, eu quero seu apoio, este ano, mas vou lhe garantir que não serei candidato a prefeito em 2012. Sabe por quê? Porque eu tenho certeza que você não vai ser candidato a governador em 2014 porque vai querer ser o prefeito dos Jogos Olímpicos. Esse sujeito percebeu...
Valor: Desde que o Rio ganhou a Olimpíada de 2016, persiste na população um misto de esperança e de ceticismo. Quando o senhor acha que esse ceticismo será superado?
Paes No dia que começar a Olimpíada. Eu posso fazer o capeta até lá que não vai ter jeito. Posso contar? Minha sorte é que a passagem da bandeira será em Londres e, pelo menos, eu não serei vaiado. Porque entrar em um estádio aqui e não ser vaiado a chance é zero. Até o Lula (presidente Luiz Inácio Lula da Silva) foi!
11/02/2010
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