Semana decisiva para o PSDB. Além da pressão para que o governador de São Paulo, José Serra, assuma a candidatura à Presidência da República e comece a tentar reverter a tendência de queda registrada pelas últimas pesquisas de intenção de voto, voltou a crescer o movimento para que o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, seja a opção do partido ao Palácio do Planalto. Mesmo tendo se retirado da disputa interna em dezembro, garantindo que se dedicaria à campanha ao Senado, o governador mineiro continuou alimentando os sonhos de parte da cúpula tucana e de partidos aliados de tornar-se o candidato principal — no caso de Serra optar pela campanha à reeleição para o governo paulista — ou de compor, como candidato a vice-presidente, uma chapa puro-sangue.
Em 8 de fevereiro, a insistência de Serra em postergar a decisão motivou um jantar do alto tucanato no Palácio das Mangabeiras, residência oficial o governador mineiro. Na ocasião, o presidente do partido, o senador Sérgio Guerra (PE), foi direto ao assunto, perguntando a Aécio se ele aceitaria ser candidato a presidente no caso de Serra desistir. Diante da resposta afirmativa, os líderes passaram a fazer reserva sobre o assunto. Em entrevista, Guerra fez questão de manter o roteiro, garantindo que a candidatura de Serra continuava “estável, sólida e consistente”.
A comemoração do centenário do ex-presidente Tancredo Neves, avô de Aécio, na próxima quinta-feira — quando será inaugurada a Cidade Administrativa, nova sede do governo mineiro —, é apontada como data emblemática para que seja feito o anúncio sobre a candidatura tucana. Aécio e Serra acertariam os últimos detalhes, pessoalmente, em jantar marcado para a véspera, em Belo Horizonte. Mesmo apostando que a conversa será definitiva, ninguém arrisca nos bastidores bater o martelo pela desistência de Serra.
Para evitar especulações, os dois governadores têm conversado, quase que diariamente, por telefone. Nesses contatos, Aécio tem transferido para Serra o ônus da pressão para ser candidato a vice-presidente. Além das declarações dos líderes do DEM e do PPS, multiplicam-se na internet os apelos, como o encabeçado pelo poeta Ferreira Gullar, que apostam no sucesso da dobradinha. Em entrevista ontem, Aécio disse que não quer ser responsabilizado por uma eventual derrota de Serra caso não seja candidato a vice. “Eu serei responsabilizado apenas pelo governo que estamos fazendo em Minas. Tomara que seja uma bela responsabilidade. Cada um de nós é responsável pelo que constrói, pelo que faz”, pontuou. Sobre a possibilidade de uma chapa puro-sangue, Aécio ironizou: “Sou mestiço. Como é que vou participar de uma chapa puro sangue?”
O comentário de ontem no Palácio da Liberdade é de que, se quiser atrair o governador mineiro, o PSDB não poderá adiar mais. Aécio até topa ser candidato, mas não aceitará ser tratado como um plano B. Como o partido está atrasado também em relação à formação dos palanques estaduais, Aécio temeria pelo sucesso da empreitada presidencial.
Durante o lançamento do selo em comemoração ao centenário de nascimento de seu avô, ontem, Aécio negou a possibilidade de assumir o lugar de Serra na disputa pela Presidência da República ou de compor chapa como vice. “Não se cogita nada parecido com isso. Nós estamos ainda a um longo período das eleições. Existem momentos e momentos numa caminhada eleitoral, e o nosso companheiro, o governador José Serra, tem todas as condições de enfrentar adequadamente essa disputa”, disse.
Em conversas privadas com seus correligionários, entretanto, o governador mineiro começou a admitir a possibilidade de compor a chapa puro-sangue. Conhecedores do estilo mineiro de fazer política, acreditam que esse possa ser o sinal de que as declarações não passam de cortina de fumaça para encobrir a intenção de encabeçar a chapa.
Mas nem todos os cenários estão definidos nesse verdadeiro jogo de xadrez que se tornou a definição da chapa tucana. A presença do deputado federal Ciro Gomes (PSB-CE) na quinta-feira, em Belo Horizonte, seria mais um sinal de que Aécio poderá assumir a candidatura, tendo o próprio Ciro como candidato a vice-presidente. Seria a declaração que a oposição precisa para reverter o jogo da sucessão, hoje mais favorável ao governo Lula.
O Palácio do Planalto, até a noite de ontem, não confirmava a presença do presidente Lula na inauguração da Cidade Administrativa. A tendência é que Lula tenha agenda em Brasília. Ele seria representado pelo vice-presidente, José Alencar.
02/03/2010
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