A continuidade da política de isenção fiscal do governo federal pode colocar em risco a sustentabilidade da economia brasileira nos próximos meses. Enquanto o governo se prepara, em clima de otimismo, para anunciar hoje uma nova relação de medidas que pretendem garantir o ritmo da atividade industrial – o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para máquinas e equipamentos que se encerraria este mês será prorrogado – especialistas se preocupam e indicam que o momento de apoiar a economia com desonerações já passou.
– As medidas de isenção fiscal foram corretas até agora. Entretanto, devem ser retiradas ao longo do primeiro semestre do ano que vem.
Em 2010, o governo terá de decidir se mantém ou não essa política fiscal expansionista. O país está crescendo bem, com o PIB (Produto Interno Bruto) anualizado acima de 8%. Mas, é preciso todo o cuidado com a taxa de juros para sustentar esse ciclo favorável a partir de 2011 – avalia Carlos Thadeu de Freitas, chefe do Departamento Econômico da Confederação Nacional do Comércio (CNC) e ex-diretor de Política Monetária do Banco Central.
Mesmo distante de uma situação de alarme, nos últimos dias, palavras como “bolha de consumo”, inflação e juros altos, que soam como estampidos aos ouvidos dos investidores, passaram a ser incluídas com mais frequência no vocabulário dos analistas de mercado.
– O governo está sendo um pouco irresponsável. A percepção dos analistas é de que a política de isenção fiscal deveria ter sido suspensa no terceiro trimestre, quando o governo já tinha dados suficientes que comprovavam o retorno da economia à normalidade – afirma Paulo Veiga, diretor de análise macroeconômica da Mercatto Gestão de Recursos. Segundo ele, a manutenção da política de desoneração relaciona-se ao interesse do governo de garantir o sucessor de Lula.
– A mensagem que o mercado está recebendo é de que essa política já não está mais ligada à crise mundial.
De qualquer forma, quem assumir (a Presidência da República) em 2011, vai encontrar a economia bem mais bagunçada que em 2010 – acredita o especialista.
De acordo com Veiga, a falta de estoques no comércio, pressionando a indústria, poderá causar aumento da inflação e a consequente elevação dos juros, mesmo que não imediatamente. “Acho difícil o Banco Central conseguir manter, em 2010, a mesma sintonia com a equipe econômica, devido ao processo eleitoral”, destacou.
Para Carlos Thadeu de Freitas, o principal acerto do governo com a política fiscal foi ter taxado a entrada de capital estrangeiro com a alíquota de 2% do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), possibilitando frear a queda do dólar frente ao real.
“Mas isso só se consegue manter por algum tempo. O Brasil continua sendo muito atraente aos investidores estrangeiros, o que aumenta a entrada de dólares no país, e há um abundância da moeda no mundo. A pressão de queda deve continuar no ano que vem.”
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