23 de maio, 2012 (Brasília)

Comunicação

O PT entrega mais do que pedem

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Fontes de Notícias : 

Jornal do Brasil

FONTE: JORNAL DO BRASIL
JORNAL DO BRASIL

Qualquer fala de Lindberg Farias seria um protesto redundante se ele ainda fosse aquele líder estudantil que surgiu à frente da UNE. O poder amadureceu seu discurso, embora o jeito inquieto à primeira impressão com um interlocutor o desnude: o empreendedor político, prefeito de Nova Iguaçu, ainda esconde um jovem líder ansioso pela mudança. Nesta entrevista ao JB, em breve passagem por Brasília, Lindberg revela sem segredos esse esforço de mudança – o de tentar mudar o PT. Diz que ainda tem força para ser indicado candidato ao governo do Rio, mas lamenta a perda de identidade do partido. Não esconde a decepção com a direção nacional. Lembra que o PT deveria estar mais voltado aos diretórios estaduais e não para o PMDB. Vai além. – Tenho a sensação de que o PT entrega mais do que pedem – e reforça que, apesar de Lula, a legenda do petismo, o partido não pode mais viver respaldado no lulismo.

O senhor foi candidato no processo de eleição do Rio e perdeu. O senhor tem voto para ser indicado candidato ao governo?
- Na verdade eu me considero vencedor nesse processo. Houve duas eleições: uma para a escolha dos delegados, que vão escolher a candidatura própria ou pela aliança com o Sérgio Cabral (governador do Rio) – e nessa primeira votação nós tivemos 55% dos votos. Então, dos 400 delegados, nós temos 55%.
A nossa vitória é que motivou uma ação, que acho exagerada por parte da direção nacional do PT, e uma interferência por parte do PMDB, do governo do estado, no sentido de virar votos.O Luiz Sérgio (deputado federal eleito presidente do diretório estadual) ganhou a eleição para presidente do partido por 52 a 48. É uma eleição simbólica do presidente. É claro que eu não queria perder. Mas eu considero que perdi uma batalha, a guerra mesmo vai ser a convenção do partido que vai acontecer em março. E é aí que vai ser decidida a posição do PT.

Como foi essa interferência?
– De todo tipo. Quando reclamei para o diretório nacional é porque eu acho que o presidente do partido não tem que agir como o presidente de todo o partido. Foi uma movimentação muito grande no Rio de Janeiro para mudar voto, de ligar para deputado. O governador do estado participou diretamente.
Acho que esse processo era interno, do PT. Não podia ter tido nenhum tipo de interferência. Agora, volto a dizer: eles achavam que iam criar um fato político e que o Luiz Sérgio ganharia no domingo e na segundafeira negociaria apoio a Cabral.
A bola ainda continua no pé das pessoas que defendem a candidatura própria. Nós vamos levar essa decisão até março porque eu acredito que a gente ganha na convenção.
Nós vamos ter esta semana uma série de conversas com as pessoas que me apoiaram no PT – o Godofredo Pinto, de Niterói, o Chico D’Ângelo, Carlos Santana, o ministro Edson Santos, o Vladimir
Palmeira... e de fora do PT, como o PDT, que tem sido um aliado muito leal, com o ministro Carlos Lupi, e o senador Marcelo Crivella, do PRB. A minha posição é de entrar em campo com força para fazer um ato pela candidatura própria, uma candidatura de esquerda no Rio.

O PT está perdido no estado?
- Nacionalmente, o PT está gozando de um prestígio e o presidente Lula, principalmente, é impressionante.
Eu falo o seguinte: se a direção nacional do PT fosse uma direção mais sólida, mais forte, se tivesse uma estratégia de construção do PT, seria melhor. Porque nós tínhamos o quê? Um Lula fortíssimo e queremos ter o Lula cada vez mais forte. O Lula é o nosso líder máximo. Mas tinha que se pensar também no fortalecimento do PT nos estados. Poderia acontecer nesta eleição um fenômeno, que eu vou colocar pela metade, porque aquele fenômeno não se repete: que foi o PMDB no Plano Cruzado, que elegeu todos os governadores do país. Aqui dá para o PT eleger de dez a 12 governadores e virar uma grande força política no país. Não ser só o lulismo, porque acho que não teve uma estratégia de crescimento próprio.
O PT está deixando o partido virar coadjuvante em todos os estados? – Sem dúvida nenhuma. Acho que às vezes nós estamos pagando um preço alto demais quando não era necessário. Eu defendo alianças.
Mas eu te pergunto: era necessário impor aos nossos senadores uma humilhação como aquela naquele caso do PMDB do José Sarney e do Renan Calheiros? Não tiveram preocupação em preservar figuras públicas importantíssimas. Lula está acima de tudo, sim. Mas o PT também tem que ser construído.
A sensação que eu tenho é que a direção, por ser muito frágil, acaba entregando mais do que pedem.
Essa negociação com o PMDB é um pouco isso. O ministro Geddel Vieira Lima se lançou contra o Jaques Wagner (governador da Bahia), o deputado federal Jader Barbalho é candidato contra a Ana Júlia (governadora do Pará). Agora querem tirar a candidatura do PT no Rio.
Em Minas Gerais é mais grave ainda: tem dois candidatos muito fortes, que vão disputar para valer a eleição de governador.

O senhor diria que o PT do Rio é um partido fraco?
Acho que o PT no Rio não tem identidade, a identidade que o Lula tem hoje no Brasil. Quando você olha para o Lula, você diz: “o Lula é o cara que defende o povo trabalhador, as pessoas que mais precisam”. O Lula aparece com essa marca. No Rio, o meu esforço e a nossa luta é tentar construir identidade, não identidade para poucos formadores de opinião, mas uma identidade associada a políticas públicas que nos referencie para a grande massa.

É uma bandeira sua para a candidatura?
É uma bandeira fundamental e que demarca campos. Outras coisas têm que ser marca do PT, como equilibrar investimentos no Rio de Janeiro. Acho que as políticas, já há algum tempo, no governo do estado, funcionam um pouco como o Robin Hood às avessas. Acho que deve haver investimentos na Baixada, no subúrbio do Rio, em São Gonçalo. Então essa preocupação, além da educação, deve haver uma discussão estratégica sobre um plano para a região metropolitana para os próximos 10 anos. Acho que são coisas que podem nos aproximar. Eu tenho uma bandeira na área de transportes, que é fundamental.

O PT é um partido forte em Brasília, mas é fragmentado nos estados. O Lula abandonou o PT?
O Lula é um grande pai para o PT e para todos nós. Virou uma liderança de tal forma forte no país que a gente não pode dizer isso. Acho que faltou mais uma direção. O lulismo é, de certa forma, tão forte, que pode acabar sufocando, também, se não houver um plano de construção do PT. Quer dizer, o Lula é tão forte, mas tem que ter um plano de sustentação do PT. Acho que hoje falta isso a parte da direção. O Lula tem preocupação com cada um de nós.

Mas para ter a governabilidade e a aliança do PMDB, o presidente Lula prioriza o aliado em detrimento dos nomes petistas.
– O Lula é uma figura tão forte para as nossas vidas. Vejo o peso do Lula hoje no país e imagino os próximos 15 anos da minha vida política, ele fora do Palácio, eu indo lá em São Bernardo (SP) conversar com o velho Lula. Ele virou, de fato essa liderança, e nós militantes e lideranças do PT temos uma relação de muita aproximação, de muita aderência, é o que é o Lula. O Lula não pode ser um problema. Mas acho que além do Lula a gente tinha que construir uma coisa forte no PT.

O senhor é candidato hoje ao governo, adversário de Sérgio Cabral, apesar de os partidos estarem alinhados atualmente. Mas o senhor faria uma campanha com ele para o Senado, se não sair candidato a governador?
- Essa pergunta é boa porque eu quero responder de forma clara. Tem muita coisa, muitas conversas de disse-me-disse. O problema é que eu quero mesmo é ser candidato a governador, porque acho que falta no Rio um espaço político grande.
O Rio tem uma história de esquerda e acho que eu podia fazer uma aliança PT-PDT-PCdoBPSC-PRB. Só sairei candidato a senador se eu perder a disputa para o governo.

Mas isso vai ser uma decisão do PT, não só sua.
– Eu quero ganhar e quero ser governador. Existe a possibilidade de eu ser senador? Existe, se eu não tiver os votos para ganhar no PT. É como se eu fizesse um freio de arrumação, preparasse um pouco e adiasse o projeto para 2014 e fosse candidato ao Senado para tentar criar correlação de forças no PT para ser candidato a governador mais à frente, em 2014. O PMDB no Rio é muito hegemônico, nas disputas pelas prefeituras eles tentaram nos derrotar em todos os lugares. Eles agora têm vaga de governador, vice-governador, já tem um senador, que é o Jorge Picciani. Se deixar, 2014 já é Eduardo Paes candidato a governador. Eles organizam a política no Rio pelos próximos 20 anos, e não há espaço para ninguém. Então eu queria ser candidato a governador agora de todo jeito e acho que vou conseguir me viabilizar. Mas para não dizer que estou escondendo, posso ser candidato a senador? Posso.
Se eu perder a disputa pela vaga, vou à luta.

Mas a priori o senhor é candidato ao governo.
– A priori sou candidato ao governo, vou até o fim e estou muito confiante no processo. Acho que tem três candidaturas mais fortes postas: do Sérgio Cabral, do Anthony Garotinho e a minha. Não consigo entender como é que tem setores do PT que não querem a minha candidatura. Para a Dilma Rousseff (candidata do PT à Presidência) não tem um cenário melhor do que esse.

Três palanques?
- Isso. Hoje quem é que está com problema no Rio? O José Serra (PSDB).

Não tem palanque.
–Não tem palanque. O Fernando Gabeira (PV) disse que é candidato ao Senado. Acho que ele vai ter que acabar indo buscar Cesar Maia (DEM) em casa, porque o Cesar Maia tem uns 14, 15% das pesquisas, mas é um candidato com uma força. Não tem outro.
Os outros candidatos seriam candidatos que começariam muito de baixo. Então acho que posso ser a novidade desta eleição.

O senhor ganha do Garotinho e do Cabral?
- Posso hoje afirmar que já me considero no segundo turno. No segundo turno eu teria uma briga dura com o Cabral. Eleição depende, na minha cabeça, centralmente, do povo. Tem gente que acha que ganha uma eleição porque tem tantos governadores.
Cada vez mais eleição tem sido a dona Maria e seu José, vendo um programa de televisão.
Era necessário impor aos nossos senadores uma humilhação como aquela do PMDB do José Sarney e do Renan Calheiros?
No segundo turno eu teria uma briga dura com o Cabral. Eleição tem sido a dona Maria e seu José vendo um programa de televisão.

ENTREVISTA COM LINDBERG FARIAS
 

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