22 de maio, 2012 (Brasília)

Comunicação

Graça que anima

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Jornal do Brasil

FONTE: JORNAL DO BRASIL
JORNAL DO BRASIL

Esses são dias especiais no calendário. Para muitos, um período de graça e esperança. Para outros, também de lembrar algumas das coisas preciosas da vida. Há alguns dias, crianças em vários lugares do mundo perguntaram o que fazia esses dias diferentes, e a resposta é simples: a celebração da liberdade e a lembrança de quando ela não existe; liberdade de expressão e crença, da pobreza, do preconceito racial, do medo.

É importante lembrar os perigos pelos quais a liberdade já passou. Não só o holocausto existiu - o Gulag também existiu, conquanto haja quem os negue ou minimize. É difícil imaginar o que é viver em um ambiente de terror, delação e pobreza. Vicariamente podemos entender um pouco com filmes como A vida dos outros, que conta a experiência de um censor na Alemanha Oriental.

É um soco de realidade ver como todo um país - na verdade, vários países - viveram assim por anos. E, revolta que ainda haja quem considere isso a norma, ou um custo razoável para se criar um "novo homem".

De forma mais próxima, ainda que atingindo apenas uma parte da população, a falta de liberdade também marca as comunidades dominadas pelo trafico de drogas, quando a autoridade publica finge que não vê o que acontece a poucos metros da avenida, ou nas faldas que circundam os bairros mais tradicionais da cidade.

Recentemente, o Rio de Janeiro tem dado importantes passos para afirmar a liberdade e quebrar a hipocrisia. Dentre esses, está a implosão dos restos do complexo penal da Rua Frei Caneca, para se construir apartamentos que serão distribuídos preferencialmente para os moradores do morro de São Carlos. Esse plano pode mostrar que é possível lidar com os problemas urbanos de forma humana, democrática, fortalecendo a ordem, as condições de trabalho e a liberdade. E sem custo extravagante para os cofres públicos. Como o governador Sérgio Cabral explicou em recente evento em Nova York, o investimento em transportes públicos e segurança, aliado às possibilidades de que a queda de juros abre para o mercado imobiliário, deve transformar a configuração urbana e qualidade de vida da região metropolitana do Rio de Janeiro.

A Frei Caneca ser a matriz de nova forma de vida é ainda mais inspirador, porque naquele presídio, a apenas 500 metros do sambódromo, passaram não só criminosos, mas vários prisioneiros políticos, como Graciliano Ramos. Vale lembrar: o velho Graça existiu! Como algumas tantas agendas dos anos 90 que só tiveram fruição mais recentemente, a memória do período Vargas parece ter se eclipsado nos últimos anos. Nunca antes na história do Brasil se havia pensado que a lembrança do populismo e do Estado Novo originais pudessem se esvanecer tão facilmente.

Eram tempos especiais aqueles, em que o governo flertava com regimes ditatoriais e em suas entranhas produzia diretrizes e documentos que hoje nos envergonham, como faz lembrar a Cruz de Ferro recebida das autoridades nazistas pelo general Goes Monteiro, um dos pilares da ditadura Vargas. Foi nesse ambiente, que Graciliano Ramos foi encarcerado sem acusação precisa, sofrendo toda forma de humilhação.

O velho Graça, entre muito méritos, é um exemplo de servidor público, pela sua inteligência aplicada aos problemas de governo, sua sensibilidade com as pessoas, a independência nas convicções e ações, a integridade na vida: enfim, o amor à liberdade. Esse extraordinário brasileiro ainda usou a arte para sublimar em parte o vexame da prisão, produzindo as inesquecíveis Me mórias de Cárcere. Saudemos o direito fundamental da liberdade!
 

JOAQUIM LEVY - SECRETÁRIO DE FAZENDA DO ESTADO DO RIO
OPINIÃO – 04/04/2010

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