22 de maio, 2012 (Brasília)

Comunicação

Gastos com pessoal afetam caixa de 10 Estados

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Jornal Valor Econômico

FONTE: JORNAL VALOR ECONÔMICO
JORNAL VALOR ECONÔMICO

Pelo menos dez Estados brasileiros estão em situação desconfortável para manter os gastos de pessoal dentro dos limites estabelecidos pela Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). Em todo o país, 17 das 27 unidades federativas elevaram a relação entre a despesa com pessoal e a receita corrente líquida em 2009, de acordo com informações do Tesouro Nacional. Pela legislação, os Estados podem comprometer até 49% da receita com os funcionários do Poder Executivo, mas o limite prudencial é de 46,55%.

O processo de adequação à lei do piso nacional dos professores da educação básica - adotado em 2008 e que, na virada do ano, sofreu reajuste de 7,86% e passou de R$ 950,00 para R$ 1.024,67 para jornadas de 40 horas semanais - pressionou o desempenho financeiro de alguns governos estaduais no ano passado e continuará a fazê-lo este ano. A área educacional é a que mais consome recursos públicos para salários, chegando a representar de 15% até 40% de todo gasto com folha de um Estado. Outros governos, contudo, cumpriram o piso sem riscos à LRF.

É no Nordeste onde mora o perigo maior de desenquadramento da LRF, fato que pode suscitar punição penal de dirigentes do Executivo e sanções administrativas, como proibição do acesso a recursos federais e internacionais, embora este ano, em função do baixo crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), os governos tenham ganho direito a prazos extras para o reenquadramento nos limites, caso descumpram a regra, como ocorreu com a Paraíba. O Estado entrou no vermelho ao gastar, em 12 meses, R$ 2,237 bilhões com a folha de pagamento dos servidores - mais de 51% dos R$ 4,379 bilhões que entraram no caixa do governo. Rio Grande do Norte (48,61%) e Alagoas (48,59%) também estão na corda bamba, conforme os dados de gestão fiscal mais recentes do Tesouro (de setembro de 2008 a agosto de 2009). Ainda no Nordeste, Bahia (45,46%) e Sergipe (44,60%) estão bem perto do limite recomendado pela legislação. Na região Norte, a situação é parecida no Acre e Amazonas, que, em um ano, gastaram com folha salarial, respectivamente, 46,54% e 46,10% de suas receitas. Minas Gerais (46,49%), Paraná (45,72%) e Goiás (46,69%) também estão perto do nível de tolerância.

No caso da Paraíba, o crescimento da arrecadação não acompanhou o ritmo dos reajustes salariais no serviço público. A despesa com pessoal, de R$ 2,237 bilhões entre agosto de 2008 a setembro de 2009, cresceu 17% em relação aos 12 meses anteriores, quando a relação despesa com pessoal/receita corrente líquida era de 45,33%. Na mesma comparação, a receita do governo cresceu apenas 4,3%. A Secretaria de Planejamento da Paraíba informou que uma das razões para o Estado estar estourado na LRF foi a queda do repasse do Fundo de Participação dos Estados (FPE), do governo federal. Em 2009, o Estado nordestino recebeu aproximadamente R$ 100 milhões a menos que no ano anterior.

Para o secretário da Educação da Paraíba, Francisco de Sales Gaudêncio, o desenquadramento da LRF também está associado ao esforço do governo para elevar o rendimento dos professores da rede pública, de acordo com o valor estipulado pelo piso nacional da categoria. Segundo ele, em janeiro e maio, os docentes tiveram dois aumentos que totalizaram 19%. "Entre os processos de cassação, o antigo governo havia criado mais de 20 planos para aumentar salários em 2009. Isso acabou ficando para a gente, e o governador José Maranhão [PMDB] achou justo priorizar educação, saúde e segurança", explica Gaudêncio.

Há anos enfrentando problemas financeiros, Alagoas é o único Estado do país a usar praticamente 100% dos recursos do Fundeb para pagar os salários dos professores - a lei determina que, no mínimo, 60% do dinheiro do fundo seja destinado à folha do magistério, os outros 40% devem ser investidos em melhorias nas escolas, por exemplo. Os docentes receberam R$ 348 milhões em 2009, pouco mais de 20% de toda a despesa com pessoal do Estado, que atingiu R$ 1,7 bilhão em um ano. Mesmo assim, o Estado conseguiu melhorar ligeiramente o desempenho da conta despesa com pessoal/RCL nos dois períodos de 12 meses observados pelo Tesouro Nacional, caindo de 48,65% para 48,59%.

O secretário da Educação alagoano, Rogério Teófilo, lembra que nos últimos dois anos, pressionado por várias greves, se viu obrigado a elevar o salário do professor em início de carreira para R$ 2.030 (jornada de 40 horas), hoje um dos mais altos do país. Além disso, 35% da força de trabalho vai se aposentar nos próximos meses e o dinheiro sairá da folha de pagamento estadual. "Além do salário, que tivemos de mexer para cumprir a Lei do Piso, quem está se aposentando nos próximos meses não vai para um instituto de previdência e isso complica o Estado na Lei de Responsabilidade Fiscal", explica Teófilo, admitindo que a relação despesa com pessoal/RCL pode extrapolar o limite de 49% em 2010, pressionada pela sua pasta. "O orçamento ainda não foi votado e a Fazenda está calculando os impactos. Alagoas vive da sazonalidade da monocultura da cana-de-açúcar na formação de sua arrecadação", complementa.

No Rio Grande do Norte, a folha de pagamento do setor público cresceu 11% até agosto de 2009, para R$ 2,297 bilhões, ante elevação de 8% da arrecadação, levando a relação entre despesa com pessoal e receita a crescer de 47,28% nos 12 meses anteriores para 48,61% nos 12 meses encerrados em agosto de 2009, se aproximando do limite de 49% da lei. O governo potiguar não informou o peso da educação e da acomodação à Lei do Piso no enquadramento à LRF.

Único Estado da região Sul pressionado por causa de gastos elevados com salários, o Paraná aumentou a folha de pagamento dos servidores públicos em quase R$ 1 bilhão até agosto do ano passado, para R$ 6,792 bilhões, na comparação com os 12 meses imediatamente anteriores. O movimento pressionou a relação gasto com pessoal/receita, colocando o Estado entre os dez piores do país: esse parâmetro subiu de 41,88% para 45,72% no confronto anual, conforme o Tesouro.
O diretor-geral da Secretaria de Educação do Paraná, Ricardo Bezerra, afirma que o cumprimento da Lei do Piso não teve interferência no desempenho financeiro do Estado em relação à LRF, porque o governo Roberto Requião (PMDB) instituiu plano de carreira dos professores em 2004. "Hoje o professor com licenciatura plena em início de carreira recebe R$ 1.906,46. Desde que assumimos [2002], a categoria reivindicava perdas salariais de 96% e nós conseguimos praticamente zerar isso", ressalta. Bezerra reconhece, entretanto, que a folha salarial dos servidores paranaenses da educação é a mais alta entre todas as pastas, chegando a 15% do total de gastos com pessoal do governo. "A folha/mês da educação está em R$ 180 milhões, é a maior do Estado, foram vários concursos desde 2003", completa o diretor.

Haroldo Corrêa Rocha, vice-presidente do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), conta que, já em 2008, os Estados adotaram cronograma de aumentos e contratações na área de educação para se antecipar à Lei do Piso, aprovada naquele ano mas em vigor de forma integral a partir de 2010. A estratégia ajudou a evitar grandes impactos fiscais, garante, mas os Estados do Norte e Nordeste e muitos municípios são exceção à regra. "Claro que uma despesa a mais sempre gera algum tipo de necessidade de acomodação, mas os reajustes já eram esperados. Dificuldades há, sobretudo no Norte e Nordeste, onde o padrão de receita é muito menor, mas as dificuldades estão sendo superadas e todo mundo está se adaptando", afirma Rocha.

Já o Ministério da Educação está convicto de que Estados e municípios não terão problemas para pagar o piso. O ministro Fernando Haddad argumenta que o aumento de R$ 5 bilhões para R$ 7 bilhões no repasse da União para o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação Básica (Fundeb) e a transferência adicional de R$ 1 bilhão para aplicação em merenda e transporte escolares, além da retomada da arrecadação por causa da expectativa de forte crescimento econômico, tornam o aumento salarial "suportável" para o caixa de prefeitos e governadores brasileiros.
 

18/01/2010

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