Brasil no escuro

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Jornal Folha de S.Paulo

FONTE: JORNAL FOLHA DE S.PAULO
 

Apagão que afetou ao menos 9 Estados e o DF teria sido causado por falha no sistema de Furnas

Dez anos depois do maior blecaute da história do país, em março de 1999, o Brasil viveu ontem uma pane semelhante, que afetou oficialmente nove Estados e o Distrito Federal e durou mais de três horas.
O problema, que começou às 22h13 e não havia sido totalmente resolvido até as 2h, teria sido causado por falha no sistema de Furnas, que parou a hidrelétrica de Itaipu e deixou até o Paraguai sem luz.
Segundo o governo, o blecaute afetou SP, RJ, MG, PR, MT, MS, ES, GO e PE, além do DF. A Folha, porém, constatou problemas em outros seis Estados: RS, SC, BA, AL, AC e RO.
Na capital paulista, o apagão parou serviços de transporte, como o metrô, levou caos ao trânsito, com os semáforos apagados, provocou pane nos telefones e pânico em pessoas que ficaram presas em elevadores ou chamavam os bombeiros devido a supostos incêndios -o problema, na verdade, eram a fumaça e o cheiro do óleo diesel de geradores ligados durante o blecaute.

Pane para Itaipu e governo apura causas
O apagão de ontem, o maior dos últimos dez anos, afetou cerca de 800 cidades, de acordo com estimativas do governo, em nove Estados e no Distrito Federal.
O Estado mais prejudicado, segundo o ministro Edison Lobão (Minas e Energia), foi o Rio, mas a pane afetou SP, MG, PR, GO, MT, MS, ES, PE e e até o Paraguai, além de pontos do DF -o Sudeste chegou a ficar totalmente às escuras. A Folha, no entanto, apurou problemas em mais seis Estados: RS, SC, BA, RO, AL e AC.
"Houve um desligamento completo da usina de Itaipu", disse o ministro Edison Lobão (Minas e Energia). Segundo ele, o problema aconteceu em uma linha de transmissão, que foi desligada, o que levou ao desligamento de outras.
A usina de Itaipu perdeu 14 mil megawatts do total de 17 mil que pode produzir. A queda teria sido causada pelos fortes temporais no Paraná. O problema estaria nas linhas de transmissão entre Ivaiporã (norte do PR) e Tijuco Preto (SP).
Por volta da meia-noite, o ONS (Operador Nacional do Sistema), responsável por administrar o fornecimento de energia no país, divulgava a informação de que o problema de falta de energia persistia apenas nos Estados do RJ, SP e ES - o fornecimento no Paraguai, que chegou a ser totalmente interrompido, também já havia retornado.
Lobão disse que o fornecimento no Brasil seria restabelecido até a manhã de hoje. A usina de Itaipu estava parada e as causas ainda não haviam sido totalmente identificadas até pouco depois da meia-noite.
O diretor-geral brasileiro de Itaipu, Jorge Samek, disse que o tempo de recuperação do sistema dependeria da gravidade do problema. "Se houve um efeito boliche [torre atrás de torre], pode consumir dias."
Ainda ontem, os técnicos tentavam identificar a origem do acidente numa extensão de 1.500 quilômetros, do Paraná até São Paulo.
Havia três suspeitas: queda de linhas de transmissão, defeitos em uma das subestações ou pane na própria usina. Lobão evitou comparações com a crise no fornecimento de energia registrada no país em 2001. "O sistema não é frágil. É um dos mais seguros do mundo", disse.
"O que houve em 2001 foi falta de energia e excesso de consumo", afirmou. Em 2003, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou a afirmar que o racionamento ocorrido em 2001 era "página virada" -em outra ocasião, dois anos depois, disse que o episódio ocorrido no governo FHC havia sido uma "vergonha nacional".
A situação foi avaliada como grave pelo governo, que recebeu a informação do apagão logo após a sua ocorrência. O presidente Lula foi informado durante reunião em que discutia com os governadores do Rio, Sergio Cabral, e Espirito Santo, Paulo Hartung, mudanças no projeto do marco regulatório do pré-sal.
Em seguida, determinou a Lobão, que participava da reunião, que tomasse as providências para solucionar o problema e esclarecesse à população o que estava ocorrendo.
Também estava na reunião a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), que já ocupou a pasta de Energia. Ela deixou o local sem falar sobre o assunto.
Assim que soube do apagão, Cabral ligou para a Secretaria da Segurança do Rio para colocar o Bope (grupo policial de elite) na Linha Amarela e Vermelha e na avenida Brasil. Também conversou com o prefeito Eduardo Paes e pediu para pôr a Guarda Civil na rua.

Confiabilidade do sistema
O blecaute de ontem retoma uma dúvida sobre a confiabilidade do sistema elétrico brasileiro, sobretudo em um momento em que as represas estão com reservatórios com os níveis mais altos em uma década.
O episódio de ontem repetiu o apagão que ocorreu em 11 de março de 1999, quando o desligamento de um circuito em Bauru, interior de São Paulo, provocou um efeito dominó no SIN (Sistema Interligado Brasileiro), levando às escuras milhões de brasileiros das regiões Sul e Sudeste. Aquele foi considerado o maior apagão da história do país, algo que pode ter sido suplantado ontem.
Carlos Augusto Kirchner, diretor do Sindicato dos Engenheiros do Estado de São Paulo, que avaliou com uma equipe de engenheiros as causas do apagão de 1999, disse ontem que considerou surpreendente esse novo desligamento. "Pelas providências tomadas em termos de alívio de carga para o sistema, não era para ocorrer."
Um dos problemas em 1999 foi, segundo ele, a inexistência de linhas de transmissão que poderiam absorver a carga que estava sendo desviada de um circuito para outro. Quando a carga gerada por uma usina não consegue passar por um circuito, ela automaticamente tenta utilizar uma linha alternativa.
O problema se agrava se essa mesma linha estiver sendo usada para o escoamento da energia de outra usina. Se as linhas de transmissão daquele circuito não forem dimensionadas para suportar a sobrecarga, o sistema derruba a transmissão.
Isso é feito para evitar o aquecimento do fio e um dano maior à infraestrutura.
É por isso que as usinas, então, são "derrubadas" e param imediatamente de gerar energia, pois não possuem canais para o escoamento.
Segundo ele, os investimentos em transmissão na última década no Brasil tornaram o Sistema Interligado Nacional mais robusto e com possibilidade de absorção de energia de outros circuitos sem, em princípio, o desligamento de várias regiões em cadeia. É por isso que o novo blecaute gerou dúvidas sobre as razões reais para o colapso de parte do sistema.
O Sistema Interligado brasileiro é o maior do mundo com esse tipo de configuração. É apresentado pelo governo brasileiro como um exemplo mundial de eficiência de gestão. Por ele, é possível, por exemplo, melhorar a performance das bacias hidrográficas e permitir a transferência de energia de uma região do país para outra, sem qualquer tipo de prejuízo.
 

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