Aumento no consumo de energia é uma das causas do problema. Temperatura vai subir ainda mais
O próximo verão pode ser marcado por apagões no Rio. Segundo especialistas, uma conjugação de fatores como o aumento da demanda por energia não acompanhada por investimentos suficientes na rede e temperaturas mais altas podem deixar o carioca às escuras, como aconteceu entre segunda-feira e ontem com pelo menos 42 mil pessoas. Foram quase 24 horas no breu.
A quarta grande queda de energia em duas semanas atingiu moradores de 12 bairros de Norte a Sul do Rio e de Caxias. Quem sofreu mais tempo com o apagão foram os moradores de Leblon, Ipanema, Lagoa, que ficaram sem luz das 15h50 de segunda até as 14h40 de ontem. Também foram atingidos os bairros de Tijuca, São Cristóvão, Benfica, Ramos, Méier, Penha, Abolição, Jacarepaguá, Sepetiba e parte de Caxias.
Meteorologistas preveem um verão muito quente, com mais consumo de energia e consequente aumento na probabilidade de novos apagões. “Para dezembro e janeiro teremos temperatura na média da estação. Para fevereiro, esperamos temperaturas mais altas e clima mais seco”, explica o meteorologista Marcelo Pinheiro, do Climatempo.
Segundo Josef Perecmanis, coordenador do departamento de Energia Elétrica da Escola de Engenharia da UFF, as políticas de incentivo a compra de eletrodomésticos provocou o aumento na demanda de energia: “Os investimentos que estão sendo feitos pelas concessionárias não estão conseguindo acompanhar a demanda. As empresas ainda estão se adaptando, mas isso não é uma coisa rápida. As empresas de energia foram pegas de surpresa”.
O vice-presidente de Clientes e Operações da Light, Roberto Alcoforado, descartou o perigo de novos apagões. Ele atribuiu a interrupção no fornecimento de bairros da Zona Sul a falha em três cabos do sistema que abastece a região. “Tivemos problemas em três de um total de oito cabos. Por prevenção, interrompemos o fornecimento. A rede na Zona Sul, Centro e parte da Barra é toda subterrânea e extremamente segura. Os problemas registrados em outras regiões são decorrentes de avarias em transformadores. Entre a quarta-feira passada e a última segunda tivemos aumento de 27% no consumo na Zona Sul. Em todo o Rio, já chega a 10%. Falarmos em risco de apagão é fora de propósito. E não vamos recomendar racionamento”.
“Durante 10 anos (de 1996 a 2006), a rede subterrânea não recebeu investimentos”, conta o engenheiro Clayton Vabo, diretor do Sindicato dos Engenheiros no Estado do Rio.
Dia de caos na Zona Sul
A falta de luz trouxe prejuízo a empresas e muita dor de cabeça para os moradores dos 12 bairros cariocas que ficaram no breu. Sem energia, alguns moradores de apartamentos não receberam a água bombeada da caixa d’água.
No Edifício Lygia Maria, na Rua Visconde de Pirajá, em Ipanema, o porteiro José Orlando Ricardo, 62, tomou banho no apartamento de um zelador amigo. “Moro no último andar. Sou obrigado a subir 146 degraus para chegar em casa”, lamentou José, que perdeu as contas de quantas vezes subiu e desceu as escadas para socorrer moradores.
Na loja de Sorvetes Itália, no Leblon, a proprietária distribuiu os picolés para não ter que jogá-los no lixo. “Meu prejuízo não vai ser menor do que R$ 50 mil ”, lamentou Sônia Negri.
Cecília Cordeiro Rocha, 70 anos, teve que ficar em casa, na Abolição, com o filho cadeirante, que não pôde sair porque o elevador do prédio não funcionava. “Foi um absurdo. “Sem luz acabamos nos sentindo presos”, lamenta a aposentada.
Light será obrigada a se explicar diariamente
Quinze depois de enviar técnicos para apurar falhas no fornecimento de energia no Rio, ontem, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) determinou, em caráter excepcional, que a Light envie informações diárias sobre interrupções no fornecimento de energia até o fim de cada tarde. A concessionária terá que relatar a duração da pane, área e população afetadas. O Ministério Público Estadual deve instaurar um Inquérito Civil Público para apurar os apagões.
Segundo a Aneel, a Light tem 48 horas para explicar as interrupções no fornecimento de energia de segunda e do último dia 13, quando Copacabana e Ipanema tiveram o serviço bastante afetado. No documento também devem constar as medidas adotadas para evitar a repetição do problema. Além dessa notificação, a agência investiga os problemas no abastecimento de luz em 30 bairros cariocas, no início do mês. A empresa tem 15 dias para se explicar e pode ser multada em até 1% de seu faturamento.
O Ministério Público do Rio deve instaurar um Inquérito Civil Público para investigar a responsabilidade da concessionária no apagão. De acordo com o promotor Rodrigo Terra, os danos causados à população devem ser ressarcidos. “O serviço de fornecimento de energia é essencial, por isso, a interrupção que causa dano ao consumidor pode ser considerada ato ilícito. Todas as formas de dano ao consumidor, sejam materiais ou morais, são passíveis de reparação”.
O secretário estadual de Desenvolvimento Econômico, Energia, Indústria e Serviços, Julio Bueno, solicitou ontem à Aneel a transferência da fiscalização das concessionárias de energia elétrica do Rio para a Agência Reguladora de Energia e Saneamento Básico do Rio (Agenersa). A intenção é intensificar a fiscalização.
32 sinais apagados
Devido à falta de energia, 85 guardas municipais foram deslocados para organizar o trânsito, principalmente na Zona Sul. Trinta e dois semáforos deixaram de funcionar.
Uma escola estadual e oito municipais não tiveram aulas ontem. Escolas Municipais Santos Anjos e Henrique Dodsworth, no Leblon, funcionaram com número de alunos reduzido nos dois turnos.
Vento deixa sem luz
Em 12 de outubro, moradores da Baixada e dos bairros Riachuelo, Engenho Novo, Abolição e Jacarepaguá ficaram sem luz. A Light atribuiu o problema a rajadas de até 75 km/h.
Zonas Norte e Oeste às escuras
Nos dias 10 e 11 deste mês, diversos bairros das zonas Norte e Oeste do Rio sofreram com quedas de energia.
Apagão nacional
Por volta das 22h20 do mesmo dia 11, um blecaute nacional deixou sem energia 18 estados. A causa do apagão — que durou mais de duas horas — é controversa. A explicação do governo foi pane elétrica na linha de transmissão de Itaipu devido a condições meteorológicas adversas. Especialistas contestaram. No Rio, o trens e metrô encerraram serviço, ônibus lotaram, sinais de trânsito pararam, celulares e telefones fixos ficaram mudos em parte da cidade, e, nos dias seguintes, o abastecimento de água ficou comprometido.
Endereço: Rua Uruguaiana, 94 / 5º andar - Centro - Rio de Janeiro - Brasil | CEP 20050-091 | Telefone: ( 21 ) 2509-2706
© Copyright 2009 SINFRERJ. Todos os direitos reservados.