O governador Aécio Neves (PSDB) retirou na quinta-feira oficialmente sua pré-candidatura à Presidência da República em 2010. Ao lado do presidente nacional do partido, senador Sérgio Guerra, a quem entregou uma carta expondo os motivos da desistência, o tucano afirmou que o tempo para conseguir trazer novos aliados para uma eventual disputa se esgotou. O partido cobra agora a definição do governador de São Paulo, José Serra, que até agora tem evitado assumir uma posição. Para os tucanos, no entanto, a saída de Aécio do cenário não é algo irrevogável, podendo ser revertida caso o colega paulista opte por concorrer à reeleição no Palácio dos Bandeirantes.
Aécio tomou a decisão esta semana e ligou na quarta-feira para seu oponente na disputa interna convidando-o a participar do pronunciamento, mas Serra alegou motivos de agenda para não comparecer. Na quinta, o governador se reuniu com Sérgio Guerra e o secretário-geral do partido, deputado federal Rodrigo de Castro (MG) e, depois de comunicar a eles a decisão, ligou novamente para Serra e para o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. "Deixo a partir deste momento a condição de pré-candidato do PSDB à Presidência da República, mas não abandono minhas convicções e minha disposição para colaborar com meu esforço e minha lealdade para a construção de bandeiras da social democracia", explicou Aécio. O governador mineiro não citou José Serra no discurso, mas disse que sua desistência vai ajudar na definição de uma candidatura ao Palácio do Planalto.
Em nota, Serra disse que o governador tem todas as condições para ser o candidato do PSDB a presidente. "É um homem que soma e que, ao mesmo tempo, sabe conduzir com firmeza as políticas públicas. Não é por menos que seu governo é tão bem avaliado e que a imensa maioria dos mineiros o considera credenciado para ocupar a função mais alta da República".
VICE. Apesar de o governador não ter anunciado sua pré-candidatura ao Senado, políticos próximos a ele acreditam que essa é a possibilidade mais provável e a opção considerada por Aécio no momento. Mesmo assim, tucanos e democratas iniciaram uma verdadeira campanha para que o mineiro ocupe a vaga de vice de José Serra. Alegam que a união dos dois tornaria a chapa tucana praticamente imbatível na disputa pelo Planalto.
"Temos consciência de que sem o Aécio será uma caminhada muito difícil. Impossível. Achamos que ele precisa caminhar junto ao Serra para que o partido se fortaleça. Espero que ele tope isso. Nossa vitória em 2010 depende dele", opinou o deputado Antonio Carlos Pannunzio (PMDB-SP). Para o líder da legenda na Câmara ,José Aníbal (SP), o anúncio de Aécio fez com que os integrantes do PSDB pensem em se empenhar para convencê-lo a participar diretamente da campanha ao lado de Serra. "O governador mineiro evitou uma disputa no partido que seria muito ruim. Ele sempre foi tido como um candidato de peso e agora a pressão dos tucanos é para que ele aceite compor uma chapa com José Serra. Pressão existe mesmo. Agora só depende dele. Ele sabe como agir", opinou.
Apesar dos apelos tucanos e da animação dos que esperam contar com o peso político do governador para fortalecer a chapa de oposição na disputa pela Presidência no próximo ano, Aécio não tem demonstrado qualquer disposição em disputar a vaga de vice. Tanto que nem mesmo o presidente do partido, senador Sérgio Guerra (PE), acredita nessa hipótese. Ele considera "improvável" que a chapa sonhada pelos tucanos se viabilize e disse que os fatos levam a crer que a tendência é mesmo que o governador dispute uma vaga como senador.
Argumentos. Para justificar sua desistência, Aécio afirmou que sua pré-candidatura ao Planalto propunha uma nova convergência, com a inclusão de novos aliados que hoje atuam na base governista e chegaram a lhe empenhar apoio. "O que me propunha a fazer de novo ao nosso projeto estava irremediavelmente ligado ao tempo da política, que, como sabemos, tem dinâmica própria. E se não podemos controlá-lo, não podemos tampouco ser reféns dele".
O mineiro lamentou que o partido não tenha optado pelas prévias por ele defendidas como sistema de escolha do candidato. Nas últimas semanas Aécio vinha indicando uma possível desistência. Em outubro, ele deu um ultimato ao partido, informando que só estaria disponível para uma candidatura presidencial até dezembro.
Para o secretário do partido, deputado Rodrigo de Castro (MG), o partido não tem José Serra como automaticamente candidato e entende como urgente uma decisão do paulista.
Trechos da carta
Há alguns meses, estimulado por inúmeros companheiros e importantes lideranças da nossa sociedade, aceitei colocar meu nome à disposição do nosso partido como pré-candidato à Presidência da República.
Defendi as prévias como importante processo de revitalização da nossa prática política. Não as realizamos, seja por dificuldades operacionais de um partido de dimensão nacional, seja pela legítima opção da direção partidária pela busca de outras formas de decisão.
Devemos estar preparados para responder à autoritária armadilha do confronto plebiscitário e ao discurso que perigosamente tenta dividir o País ao meio, entre bons e maus, entre ricos e pobres.
O que me propunha tentar oferecer de novo ao nosso projeto, no entanto, estava irremediavelmente ligado ao tempo da política, que, como sabemos, tem dinâmica própria. E se não podemos controlá-lo, não podemos, tampouco, ser reféns dele.
Deixo a partir deste momento a condição de pré-candidato do PSDB à Presidência da República, mas não abandono minhas convicções e minha disposição para colaborar, com meu esforço e minha lealdade, para a construção das bandeiras da Social Democracia Brasileira.
Busco contribuir, dessa forma, para que o PSDB e nossos aliados possam, da maneira que compreenderem mais apropriada, com serenidade e sem tensões, construir o caminho que nos levará à vitória em 2010.
Independentemente de nova missão política que porventura possa vir a receber, continuarei trabalhando para ser merecedor da confiança e das melhores esperanças dos que partilharam conosco, neste período, uma nova visão sobre o Brasil.
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